Bloqueio de proxies, mais captchas e dados falsos derrubam a confiabilidade de Semrush, Sistrix e outras ferramentas, enquanto o relatório de desempenho do Search Console chegou a ficar mais de 64 horas atrasado
Segunda-feira, reunião de resultado com o cliente. O relatório da ferramenta de rank tracking mostra uma página importante fora do top 10. Você abre uma janela anônima, pesquisa a mesma palavra-chave e lá está ela, firme na terceira posição. Nas últimas semanas, esse descompasso deixou de ser exceção e virou rotina pra muita gente que trabalha com SEO. Agora, há uma explicação mais concreta, e ela é desconfortável.
Segundo uma pesquisa publicada nesta segunda-feira, 12 de outubro, por Derek Perkins, da ferramenta Nozzle, o Google vem servindo SERPs “envenenadas” aos rank trackers desde setembro de 2026: páginas completas, com aparência normal, mas com os resultados trocados. No levantamento, 8% das SERPs coletadas vieram adulteradas. O caso foi repercutido pelo Search Engine Roundtable, que vem acompanhando há semanas as dificuldades das ferramentas de terceiros.
Pra completar o cenário, o relatório de desempenho do Search Console chegou a ficar mais de 64 horas atrasado no fim de semana. A seguir, você entende o que o Google está fazendo contra os scrapers, o que a Nozzle encontrou, como as principais ferramentas foram afetadas e como medir resultados com mais segurança nesse momento. Continue a leitura a seguir.
Nozzle encontra 8% das SERPs coletadas com resultados trocados desde setembro
O estudo da Nozzle, batizado de Poisoned Google SERPs, descreve um padrão difícil de detectar. As páginas entregues às ferramentas são completas e parecem normais, mas os resultados foram substituídos. Segundo Perkins, nada na página denuncia a adulteração. O que entrega o problema é o histórico de cada palavra-chave, que mostra uma mudança brusca sem explicação.
Os principais achados ajudam a entender o mecanismo. Cerca de 8% das SERPs vieram envenenadas. O padrão observado foi primeiro o bloqueio e depois o envenenamento. Nas páginas adulteradas, redes sociais e fóruns ocupam o espaço deixado pelos resultados originais, e os sites monitorados acabam caindo pra fora do top 10. E o efeito costuma desaparecer em poucos dias.
Na prática, isso significa que uma queda vista na ferramenta pode não ter acontecido de verdade. E, como o envenenamento é passageiro, a “recuperação” que aparece dias depois também pode ser só o fim da adulteração. Pra quem toma decisão com base nesses gráficos, o risco é reagir a um problema que não existe.
Bloqueio de proxies, captchas e dados falsos: a estratégia em três frentes do Google
Em conversa com Barry Schwartz, Perkins detalhou o que chamou de uma abordagem em três frentes. A primeira é um bloqueio de IPs em larga escala, que atinge as principais redes de proxies residenciais usadas pra coletar resultados. A segunda é um aumento significativo no uso de captchas. A terceira, e mais preocupante, é a injeção de dados ruins em SERPs suspeitas, pra que as ferramentas recebam informações erradas quando conseguem coletar a página.
Schwartz afirmou que essa terceira frente é a que mais o preocupa. Na avaliação dele, a maioria das ferramentas não vai perceber o problema rapidamente e pode achar que está tudo bem, quando o Google pode estar apenas brincando com elas.
O movimento não começou agora. Em julho, o Google passou a testar redirecionamentos do tipo “goto” nos resultados pra identificar e bloquear scrapers. Desde então, também vem testando formas novas de verificar se o usuário é humano, com mais frequência do que antes. E não dá pra esquecer o fim do parâmetro num=100, em 2025, que já tinha encarecido a coleta de dados pelas ferramentas.
Alvo provável são bots de IA e a SerpApi, não as ferramentas de SEO
O Google não comentou oficialmente as medidas. Schwartz acredita que o objetivo não é atingir as ferramentas usadas por profissionais de SEO, e sim os bots de IA que coletam os resultados da Busca e serviços como a SerpApi, com quem o Google travou uma disputa judicial recente.
A leitura faz sentido no contexto atual. Os resultados do Google viraram matéria-prima valiosa pra empresas de IA, que usam a SERP pra alimentar respostas em tempo real. Dificultar a coleta automatizada protege esse ativo. O problema é que as ferramentas de rank tracking usam tecnicamente o mesmo caminho e acabam atingidas no fogo cruzado.
Contudo, essa é uma interpretação, e não uma posição oficial do Google. Não é possível afirmar qual é o alvo das medidas, nem se as ferramentas de SEO serão poupadas em algum momento. O que os dados mostram é que, hoje, elas estão sendo afetadas.
Ahrefs, Semrush e Sistrix mostram desempenhos diferentes em quedas confirmadas
Os relatos de profissionais ajudam a medir o tamanho do problema. O consultor Glenn Gabe comparou como as principais ferramentas registraram a queda de um site atingido em 29 de setembro, durante o spam update, uma queda confirmada pelo próprio dono do site. Segundo ele, o Ahrefs captou a queda com precisão, o Semrush demorou bastante, mas acabou registrando, e o Sistrix ainda não mostrava a queda.
Em setembro, Gabe já tinha feito um teste parecido com um site que caiu quase 100% e depois se recuperou totalmente. O resultado foi semelhante: o Ahrefs captou a recuperação, o Semrush registrou com atraso e o Sistrix não mostrou. A consultora Lily Ray também comentou que tentou compartilhar análises, mas que os rank trackers estavam pouco confiáveis no momento.
Várias ferramentas publicaram avisos aos clientes. O Sistrix comentou o problema, a DataForSEO registrou o caso na página de status, o SE Ranking informou posições ausentes pra algumas palavras-chave, mas disse que a maior parte já foi resolvida, e a Advanced Web Rankings e a Morningscore também publicaram explicações. Segundo Schwartz, muitas outras não responderam ou confundiram os redirecionamentos “goto”, que são a parte mais fácil de contornar, com os problemas novos. Até o MozCast, um dos termômetros de volatilidade mais conhecidos do mercado, está em transição, depois de seu criador, Dr. Pete Meyers, dizer que o Google não facilita a manutenção da ferramenta.
Relatório de desempenho do Search Console chega a mais de 64 horas de atraso
Justamente quando as ferramentas de terceiros estavam mais instáveis, a principal fonte oficial de dados também falhou. No domingo, 11 de outubro, o relatório de desempenho do Search Console chegou a mais de 64 horas de atraso, algo muito incomum. Normalmente, esse relatório é atualizado em poucas horas.
O atraso apareceu nos dias seguintes à conclusão do spam update de setembro. Ao longo do domingo, a defasagem caiu pra cerca de 44 horas e, na segunda-feira, o relatório voltou ao normal. O Google não comentou o problema. Segundo Schwartz, o último atraso tão longo no relatório de desempenho tinha acontecido em dezembro de 2025.
Parte do mercado chegou a interpretar o atraso como sinal de um core update a caminho. Schwartz disse duvidar dessa relação, mas lembrou que há um consenso de que um core update deve chegar em breve. Por enquanto, tratar o atraso como prenúncio de update seria especulação.
Search Console vira a fonte mais confiável, mas segue sem dados de cliques da IA
Com as ferramentas de terceiros sob pressão, o Search Console ganha ainda mais importância. Schwartz lembrou que o Google oferece ali um volume grande de dados sobre posições, cliques e impressões, que vêm diretamente da Busca e não dependem de coleta automatizada.
Mas há uma lacuna importante. O Search Console ainda não mostra dados de cliques nem de consultas pros recursos de IA generativa, como AI Overviews e AI Mode. É uma limitação que a EducaSEO já discutiu ao mostrar como o Google reconheceu que os relatórios de IA do Search Console ainda não medem a visibilidade real dos sites.
Colocando lado a lado, o cenário é delicado. As ferramentas de terceiros estão menos confiáveis, o Search Console tem lacunas na IA e acabou de passar por um atraso incomum. Pra quem precisa reportar resultados, a mensagem é clara: nenhuma fonte isolada está dando conta do quadro completo neste momento.
Como medir resultados com mais segurança enquanto as ferramentas estão instáveis
A primeira recomendação, que aparece em vários comentários de profissionais, é priorizar a tendência do Search Console. Como lembrou o especialista Daniel Skov Jacobsen, muitas ferramentas passaram a trabalhar com amostragem depois que o Google encareceu a coleta, então parte das oscilações diárias pode ser apenas ruído de medição.
A segunda é desconfiar de quedas bruscas que somem em poucos dias, especialmente quando o espaço do seu site é ocupado por redes sociais e fóruns. Esse é exatamente o padrão do envenenamento descrito pela Nozzle. Antes de agir, vale checar a posição numa janela anônima e cruzar com os cliques e as impressões no Search Console.
A terceira é ajustar a comunicação com clientes e diretoria. Se os relatórios dependem de uma única ferramenta de rank tracking, vale explicar o momento, mostrar os dados oficiais lado a lado e evitar decisões grandes com base em variações curtas. Pra agências e times de SEO no Brasil, que usam muito Semrush, Ahrefs e similares nos relatórios mensais, essa transparência pode evitar alarmes falsos.
Fim da era do dado fácil exige leitura mais crítica, e a EducaSEO acompanha essa mudança
O que a Nozzle documentou mostra uma mudança estrutural. A SERP do Google deixou de ser um dado público fácil de coletar e virou um ativo protegido, com bloqueios, verificações e até informações falsas pra quem tenta raspá-la em escala. As ferramentas de SEO vão se adaptar, mas o período de transição exige muito mais senso crítico na leitura dos números.
Interpretar os dados com cuidado, cruzando fontes e separando sinal de ruído, é o tipo de análise que a EducaSEO faz no dia a dia com quem atua em SEO e GEO. Quem acompanha esse movimento de perto na EducaSEO sai na frente pra tomar decisões com base no que realmente aconteceu, e não no que a ferramenta mostrou.
Referências
Nozzle. Poisoned Google SERPs. Disponível em: https://nozzle.io/research/poisoned-google-serps/
Search Engine Roundtable. Third-Party Google Rank Tracking Struggling Now. Disponível em: https://www.seroundtable.com/third-party-google-rank-tracking-broken-42272.html
Search Engine Roundtable. Google Search Console Performance Report Extremely Delayed. Disponível em: https://www.seroundtable.com/google-search-console-performance-report-delayed-42271.html
Advanced Web Ranking. Why your tracked rankings no longer match what you see in Google. Disponível em: https://www.advancedwebranking.com/blog/why-your-tracked-rankings-no-longer-match-what-you-see-in-google
Sistrix. Google ranking data collection. Disponível em: https://www.sistrix.com/support/google-ranking-data-collection/