O Google está vivendo um mês de junho de contrastes. De um lado, está sendo obrigado a explicar mais. Do outro, continua explicando o mínimo possível, e a folga entre essas duas posturas é o que você precisa entender primeiro.
No Reino Unido, a CMA, autoridade de concorrência do país, determinou que o Google passe a adotar critérios de ranqueamento objetivos e documentados, com aviso prévio para mudanças significativas no sistema de busca, já contamos esse caso aqui no blog.
Fora do alcance desse tipo de regulação, vale a regra de sempre. Foi assim em 7 de maio de 2026, quando o FAQ rich result parou de aparecer na Busca sem aviso prévio e sem post de blog, só uma frase nova no topo de uma página de documentação técnica para desenvolvedores.
Quem acompanha esse mercado já reconhece o padrão. Foi assim com o HowTo, em 2023, e tudo indica que vai continuar assim em todo mercado sem esse tipo de exigência regulatória pendurada sobre a cabeça do Google.
O problema é que, na ausência de explicação oficial, a notícia se espalhou em duas versões opostas nas últimas semanas. Uma parte do mercado decretou que o schema FAQPage morreu. Outra, inspirada pela onda de conteúdo sobre GEO (a otimização de conteúdo para sistemas de IA generativa), passou a defender o contrário: que o schema nunca foi tão importante, porque seria a porta de entrada das respostas de IA.
As duas leituras erram pelo mesmo motivo: tratam rich result e dado estruturado como a mesma coisa, quando não são.
Mas para entender o tamanho real dessa mudança, vale voltar três anos. Porque maio de 2026 não é o começo dessa história, é o final dela.
Da restrição de 2023 ao fim do FAQ rich result em maio de 2026
O FAQ rich result nasceu em 2019. A ideia era simples: se o seu site tivesse uma lista de perguntas e respostas marcada com o schema FAQPage, o Google poderia exibir esse conteúdo direto na busca, em formato de sanfona, expandindo o espaço do seu resultado na tela.
Para quem trabalha com SEO, isso virou rotina rapidamente. Mais espaço na SERP, mais cliques, e a sensação de estar ganhando do concorrente sem precisar subir de posição.
Em agosto de 2023, essa festa acabou para quase todo mundo. O Google restringiu a exibição do FAQ rich result a sites “conhecidos e autoritativos” voltados a governo e saúde, e fez questão de avisar, na época, que não havia necessidade de remover o schema do código.
Foi aí que a função real do FAQPage começou a ficar confusa para o mercado. Rich result e dado estruturado passaram a ser tratados como sinônimos, quando sempre foram duas coisas separadas. Um é a vitrine. O outro é a etiqueta que descreve o conteúdo por trás dela.
Maio de 2026 fecha esse ciclo. A documentação atual do Search Central confirma que os FAQ rich results não aparecem mais na Busca, e que o relatório de rich result e o suporte no Rich Results Test serão removidos em junho de 2026, com a API do Search Console perdendo suporte em agosto do mesmo ano.
Na prática: mesmo os sites de governo e saúde que ainda tinham elegibilidade perderam o recurso. Não sobrou exceção.
O Google também não justificou a decisão além da própria nota na documentação, o que, somado ao histórico do HowTo, sugere menos uma decisão isolada e mais a continuação de um movimento de simplificação que já dura anos.
Se você acompanha o blog, já viu esse padrão antes: o Google lançou recentemente um relatório de IA generativa dentro do próprio Search Console, sinal de que a empresa está reorganizando onde e como reporta dados de busca, não só removendo recursos.
Por que o Google encerrou o FAQ rich result agora
A pergunta que ninguém respondeu oficialmente é “por quê agora”. O Google não deu motivo. Isso abriu espaço para teorias.
Lily Ray, ex-VP de SEO Strategy & Research na agência Amsive e hoje à frente da consultoria Algorythmic, levantou uma hipótese no LinkedIn poucos dias depois do anúncio. Segundo ela, uma busca cruzando “FAQ schema” com GEO retornava mais de 168 mil artigos, a maioria afirmando que o schema havia se tornado indispensável para aparecer em AI Overviews, ChatGPT e Perplexity.
O raciocínio por trás desse conteúdo era simples e, na visão dela, equivocado: já que a IA extrai conteúdo em formato pergunta-resposta, o FAQPage seria o atalho garantido para entrar nas respostas geradas por IA.
Vale o peso de uma hipótese pessoal, não de motivo confirmado pelo Google. Mas ela descreve um padrão que já vimos se repetir com o spam update: toda vez que uma técnica vira fórmula replicada em escala, ela tende a perder o benefício que a tornou popular.
Existe uma segunda leitura circulando, e ela não contradiz a primeira, só desloca o problema para outro lugar.
Para essa corrente, a IA não trabalha do mesmo jeito que o Googlebot. Modelos de linguagem são treinados para ler texto corrido, não para interpretar marcação JSON-LD com rigor de parecer técnico. Um bom bloco de pergunta e resposta em prosa, com heading claro, cumpriria a mesma função sem depender do schema.
Tem ainda uma terceira camada nessa discussão, e ela vai além de qualquer teoria sobre spam ou sobre como a IA lê schema: o hábito do Google de mudar o que afeta o mercado sem aviso prévio está deixando de ser só reclamação de profissional de SEO e virando questão regulatória de fato.
A CMA já obrigou o Google, sob o regime de mercados digitais britânico, a ranquear resultados orgânicos com critérios objetivos e não discriminatórios, e a avisar com antecedência sempre que fizer mudanças significativas nesse sistema: prazo de seis meses para entrar em vigor.
A obrigação, vale dizer, é sobre ranqueamento orgânico e sobre AI Overviews, não sobre rich results como o FAQ. Mas o espírito da exigência é exatamente o que ficou em falta nessa história: aviso prévio e critério documentado, duas coisas que o Google não ofereceu nem aqui.
Se esse modelo pegar tração em outros mercados (e já existe sinal de que pode servir de referência para outros reguladores), episódios como o do FAQ rich result podem deixar de ser surpresa de quarta-feira de manhã e passar a vir com aviso de seis meses.
De qualquer forma, das três camadas, a que mais pesa para a decisão prática que você precisa tomar é a segunda: a do schema dependendo ou não da própria marcação para ser lido por IA.
O schema FAQPage ainda importa para a IA?
Essa pergunta tem uma resposta de manchete e uma resposta de dado bruto.
A resposta de manchete vem de estudos correlacionais que circulam bastante no LinkedIn. Um deles, da AirOps, mostra que páginas com heading claro combinado a schema markup têm taxa de citação em IA 2,8 vezes maior do que páginas mal estruturadas. Número bonito, fácil de virar slide.
O problema é que correlação não prova causa, e foi exatamente isso que a Ahrefs testou.
Em maio de 2026, a empresa publicou um estudo que parte do mesmo achado inicial: páginas citadas por IA têm quase três vezes mais chance de usar JSON-LD do que páginas não citadas. Até aqui, bate com a narrativa da AirOps.
Só que a Ahrefs não parou nesse número. A equipe suspeitou que sites com schema também costumam ser sites mais maduros tecnicamente, com mais autoridade e mais links. Ou seja: o schema podia estar só pegando carona em outros sinais, sem fazer trabalho próprio nenhum.
Para isolar o efeito real, a Ahrefs rastreou 1.885 páginas que adicionaram JSON-LD entre agosto de 2025 e março de 2026, e comparou cada uma com três páginas de controle parecidas, que nunca usaram schema.
O resultado, depois de quatro testes estatísticos diferentes, foi direto:
| Plataforma | Efeito de adicionar schema |
| Google AI Overviews | -4,6% (queda pequena, mas estatisticamente real) |
| Google AI Mode | +2,4% (estatisticamente igual a zero) |
| ChatGPT | +2,2% (estatisticamente igual a zero) |
Em nenhuma das três plataformas, adicionar schema produziu ganho relevante de citação. A pequena queda em AI Overviews também não pôde ser atribuída ao schema com confiança, já que as páginas tratadas vinham em trajetória de queda antes mesmo da marcação entrar.
Tem uma ressalva importante aqui, e ela muda a leitura prática para muita gente: todas as páginas do estudo já tinham mais de 100 citações em IA antes do teste começar, ou seja, já estavam dentro do conjunto de consideração dos modelos. Para uma página que ainda não é vista pela IA, o schema pode continuar ajudando em rastreamento e indexação, só que esse cenário específico não foi testado.
E tem um dado complementar que vale registrar: um experimento independente da searchVIU testou se cinco sistemas de IA (ChatGPT, Claude, Perplexity, Gemini e Google AI Mode) realmente liam o schema ao buscar uma página em tempo real. Nenhum deles leu. Todos extraíram apenas o HTML visível, ignorando o JSON-LD e a marcação oculta.
Junte os dois achados e a leitura fica mais clara.
O schema continua sendo uma boa prática de organização e pode ajudar sites menores a serem rastreados com mais clareza. Mas, para quem já tem conteúdo relevante e bem estruturado, ele não é o ingrediente que decide se a IA vai citar você ou não.
Isso conecta direto com algo que já detalhamos por aqui sobre como os modelos de linguagem leem e indexam o conteúdo da web: o que pesa de verdade para esses sistemas é a clareza do texto visível, não a etiqueta por trás dele.
Schema FAQ: remover ou manter? O que fazer na prática
Com os dois lados da história na mesa (a queda real do rich result e a ausência de ganho causal em IA) a pergunta prática fica mais simples de responder do que parecia há um parágrafo atrás.
Preciso remover o schema FAQPage do site?
Na maioria dos casos, não. O próprio Google mantém, na mesma documentação que anuncia o fim do rich result, a recomendação histórica de que dado estruturado sem uso não causa problema para a Busca, só deixa de gerar efeito visível.
O cálculo muda quando o esforço de manutenção é alto. Se o schema FAQ do seu site depende de desenvolvedor para atualizar, exige QA visual constante e gera dívida técnica sem entregar nada em troca, faz sentido perguntar se aquele tempo não rende mais em outro lugar.
A linha que separa manter de remover não é sobre IA, nem sobre rich result. É sobre fidelidade ao conteúdo: se a pergunta marcada existe de verdade, visível na página, deixe como está. Se foi criada só para preencher um bloco de schema, sem pergunta real por trás, vale cortar, isso já era problema antes da mudança de maio, só ficou mais visível agora.
O schema FAQ ainda ajuda a aparecer em IA Overviews e no ChatGPT?
Ajuda pouco, e ajuda mais pelo caminho indireto do que pelo direto. A marcação correta organiza a relação entre pergunta e resposta de um jeito que facilita auditoria, ajuda outros sistemas (Bing, assistentes de voz, grafos de conhecimento) e mantém o conteúdo descrito com precisão.
O que decide a citação em IA, pelos dados que vimos até aqui, é outra coisa: texto visível, claro, organizado em formato de pergunta direta seguida de resposta objetiva, exatamente o tipo de estrutura que a auditoria de navegação por agentes de IA do Lighthouse já passou a verificar.
Na prática, o pacote de ação fica assim:
- Audite onde o FAQPage existe hoje no site e separe FAQ genuíno de FAQ decorativo.
- Exporte os dados históricos de rich result no Search Console antes de junho de 2026, já que o relatório vai sair do ar.
- Ajuste integrações via API antes de agosto de 2026, para os dashboards não pararem sem aviso.
- Mantenha o schema nas páginas onde a pergunta é real, sem pressa de deletar e sem pressa de blindar tudo pensando só em IA.
- Acompanhe a visibilidade fora do Google com ferramenta dedicada, como os recursos que a Semrush lançou recentemente para medir presença em IA.
O que isso sinaliza para o futuro da busca
Tirando a poeira dos dois lados do debate, sobra um padrão maior, e ele não é exclusivo do FAQ.
O Google vem simplificando o próprio catálogo de rich results há anos: primeiro o HowTo, agora o FAQ, sempre sem post de blog, sempre pela porta dos fundos da documentação técnica.
Ao mesmo tempo, a citação em IA está se tornando um jogo decidido em outra camada: conteúdo claro, bem estruturado, fácil de extrair, com ou sem schema por trás. O estudo da Ahrefs sobre o avanço do tráfego de IA generativa já mostrava esse movimento de fragmentação da busca; o fim do FAQ rich result é só mais uma peça confirmando que o jogo mudou de regras, não de tabuleiro.
Para quem trabalha com SEO no dia a dia, a tarefa não é escolher um lado da treta do LinkedIn. É auditar o que existe, manter o que é genuíno, e parar de tratar marcação como atalho, seja para Busca tradicional, seja para IA.
Se você quer entender melhor onde estrutura técnica realmente pesa na era da busca por IA, vale conhecer o programa ao vivo de GEO da EducaSEO, com especialistas que já estão de olho nesse tipo de mudança.
Referências
- Google Search Central. Mark Up FAQs with Structured Data. Disponível em: https://developers.google.com/search/docs/appearance/structured-data/faqpage
- Google Search Central Blog. Changes to HowTo and FAQ rich results. Disponível em: https://developers.google.com/search/blog/2023/08/howto-faq-changes
- Search Engine Journal. Matt G. Southern. Google Drops FAQ Rich Results From Search. Disponível em: https://www.searchenginejournal.com/google-drops-faq-rich-results-from-search/574429/
- Ahrefs. Louise Linehan e Xibeijia Guan. We Tracked 1,885 Pages Adding Schema. AI Citations Barely Moved. Disponível em: https://ahrefs.com/blog/schema-ai-citations/
- AirOps. How to Implement Schema Markup for Answer Engine Optimization (AEO). Disponível em: https://www.airops.com/blog/schema-markup-aeo
- SEO Strategy Ltd. FAQ Schema Deprecation 2026: Rich Result vs Schema (cobertura da análise de Lily Ray sobre o timing da mudança). Disponível em: https://www.seostrategy.co.uk/learn/faq-schema-deprecation-2026-rich-result-vs-schema/