Tem um tipo de post que qualquer profissional ativo no LinkedIn reconhece de cara: aquele texto com a estrutura “aprendi 3 lições essa semana”, quebra de linha a cada frase curta e um fechamento motivacional que serviria pra qualquer perfil, de qualquer setor.
Boa parte desse feed hoje sai direto de um prompt, e um levantamento da Pangram, empresa especializada em detecção de texto gerado por IA, chegou a estimar que 41% dos posts longform da rede são provavelmente escritos por IA do início ao fim.
O lançamento acontece num momento em que pesquisas como a da Pangram já vinham chamando atenção pro tamanho do problema, e em 30 de julho de 2026 o LinkedIn anunciou um pacote de mudanças para conter o que o próprio LinkedIn passou a chamar de AI slop: conteúdo automatizado, sem revisão e sem contribuição real de quem assina o post. O centro do anúncio é um botão dentro do menu de três pontinhos de cada publicação, que deixa qualquer usuário sinalizar que aquele conteúdo “parece AI slop”.
Se a marca ou o profissional que posta no feed corporativo depende de geração automática sem revisão humana, a régua que antes era só do algoritmo do LinkedIn agora também passa pelos próprios usuários que rolam o feed, numa tentativa de trazer maior transparência (ou, no mínimo, melhorar a qualidade) nos conteúdos postados na plataforma.

O que o LinkedIn lançou: botão “seems like AI slop” e fim da reescrita automática
O anúncio veio direto do CPO da unidade de ecossistema do LinkedIn, Hari Srinivasan, em post publicado na própria rede. “AI slop é uma prioridade máxima para todos nós. Isso realmente importa pra gente. As pessoas vêm ao LinkedIn para se conectar com gente de verdade e compartilhar perspectivas e experiências reais”, escreveu o executivo, ao apresentar a lista de mudanças.
Junto com o botão de sinalização, o LinkedIn reforçou as próprias defesas contra automação: segundo Srinivasan, a plataforma já bloqueia centenas de milhares de tentativas de comentário automatizado por dia, além de bilhões de outras tentativas de automação em massa nos últimos meses. A empresa também está expandindo a verificação de perfis e páginas, hoje passando de 100 milhões de contas verificadas.
Como funciona o botão de denúncia no menu de três pontos
O “seems like AI slop” aparece na lista de opções que abre ao clicar nos três pontinhos de um post ou anúncio. Não é uma denúncia formal, tipo aquelas que abrem um processo de moderação: é um sinal privado, que alimenta os classificadores que o LinkedIn usa pra identificar conteúdo automatizado e de baixa qualidade.
Para quem clica, o LinkedIn oculta aquele post específico do próprio feed e agradece pelo retorno. Para quem publicou, o retorno também está sendo testado: segundo Srinivasan, a ideia é avisar de forma privada, dentro do próprio painel de analytics, quando parte da audiência considerar aquele conteúdo pouco autêntico ou com uso pesado de IA. Como o restante do pacote, esse aviso ainda está em fase de teste, não é recurso já ativo pra toda a base.
Por que o “enhance your post” está sendo substituído por revisão que não muda a voz
Outra mudança do pacote é a saída de campo do “enhance your post”, recurso que usava IA para reescrever o texto de quem estava publicando. No lugar, entra uma função só de revisão gramatical, que corrige erros sem alterar o tom ou a estrutura do que a pessoa escreveu.
Vale registrar que essa não é bem uma retirada total da IA generativa do produto, é uma leitura nossa cruzando o anúncio com o histórico recente do LinkedIn: a mesma empresa que hoje remove um recurso de reescrita automática lançou, há menos de um ano, um assistente de escrita com IA voltado a perfis premium.
O gesto de agora pesa mais como correção pontual de uma fonte específica de slop do que como recuo da IA generativa dentro da plataforma como um todo.
O recurso ainda está em fase de teste, não em liberação global
Aqui vale um alinhamento de expectativa. Cobertura da TechCrunch, do The Verge e do The Independent descreve o botão como recurso em teste, ainda não disponível para toda a base de usuários. O Independent chega a registrar que, em parte dos testes, a opção nem aparece no menu de três pontos.
Não existe, até a publicação deste texto, uma data de rollout completo confirmada pelo LinkedIn, nem garantia de que o formato atual do botão será o formato final quando chegar a todo mundo.
Por que o LinkedIn decidiu agir contra o AI slop agora
O estudo da Pangram e os 41% de posts gerados por IA
O anúncio saiu menos de um mês depois do 404 Media noticiar o levantamento da Pangram, que também estimou 30% dos posts curtos da rede como prováveis de IA. A cobertura do tema associa os dois eventos pela proximidade de datas, mas o LinkedIn não confirmou publicamente que o estudo foi o gatilho direto do lançamento.
Não é a primeira vez que o LinkedIn reconhece publicamente o problema: já em maio de 2026, o mesmo Srinivasan tinha postado sobre o tema, descrevendo o slop em três frentes, ferramentas de automação usadas para crescer distribuição, perfis falsos operados por IA e o efeito de “tragédia dos comuns” de dezenas de comentários escritos no mesmo estilo artificial.
O paradoxo do LinkedIn: vender IA generativa e também tentar contê-la
Tem uma tensão que o próprio executivo assume no post de anúncio. Ao explicar por que as pessoas postam com IA, ele escreveu que “o LinkedIn não é um lugar de uma palavra só”, reconhecendo que parte da cultura da rede empurra profissionais a rodar o próprio texto por uma ferramenta de IA antes de publicar, muitas vezes pra soar mais seguro ou mais polido.
É a mesma plataforma que ao longo do último ano investiu pesado em recursos de IA generativa para escrita, geração de imagem e sugestão de conteúdo, e que agora precisa lidar com o volume que essas mesmas ferramentas ajudaram a criar. O anúncio não nega essa contradição, só assume que o problema mudou de escala.
LinkedIn não está sozinho: o resto do mercado também está marcando conteúdo de IA
Substack lança ferramenta própria pra identificar texto gerado por IA
No mesmo pacote de notícias de social media da semana, o Substack anunciou um recurso de escaneamento que ajuda leitores a identificar se um texto foi escrito por humano ou por IA, movimento que a própria plataforma associou ao desejo de não repetir o problema que hoje persegue o LinkedIn.
O paralelo com os classificadores de spam em massa que o Google já usa
A lógica por trás do novo botão do LinkedIn lembra o que o Google já vem fazendo do lado da busca. Já mostramos aqui como o Google usa classificadores pra identificar padrões de abuso e produção de conteúdo em escala, o que a própria empresa chama oficialmente de “scaled content abuse”, trocando a pergunta de “esse conteúdo é spam?” por “esse grupo de contas está operando como rede coordenada?”.
O LinkedIn não fala nesses termos, mas o caminho é parecido: em vez de tentar julgar cada post isolado, a plataforma está tentando treinar um sistema que reconheça padrão de produção em massa, usando o próprio usuário como fonte de sinal.
O que muda pra quem publica conteúdo institucional no LinkedIn
O impacto indireto: menos alcance orgânico pra quem soa automático
O botão em si não apaga post nem gera punição pública visível para quem publicou, pelo menos não do jeito que está hoje. O efeito mora nos classificadores: as sinalizações entram como mais um sinal no treinamento desses modelos, que o LinkedIn diz usar para reduzir a distribuição de AI slop em sugestões e em conteúdo fora da rede de contatos de quem publicou. A empresa não detalhou publicamente o peso exato de cada denúncia nesse cálculo.
Para página de empresa ou perfil corporativo que abusa de geração automática sem revisão, esse é o risco real: não uma bandeira pública cravada no post, mas uma perda silenciosa de alcance, somada a um aviso privado no painel de quem publicou, avisando que parte da audiência considerou aquele conteúdo pouco autêntico.
Como ajustar o texto institucional para passar no teste de autenticidade
O ajuste mais direto é abandonar a fórmula genérica que qualquer classificador (e qualquer humano cansado de rolar o feed) já aprendeu a reconhecer: abertura em lista numerada, frases curtas a cada linha, fechamento inspiracional sem nenhum dado concreto por trás. Trocar isso por um caso real, um número específico da própria operação ou uma opinião que só aquela marca defenderia já reduz boa parte do risco.
Outro ponto é manter a revisão humana mesmo quando a IA entra no processo de escrita. A diferença que Srinivasan descreve entre “refinar um pensamento com IA” e “publicar slop puro” é exatamente essa: quem edita, corta e assina o próprio ponto de vista tende a passar longe do padrão que o botão foi treinado para sinalizar.
O que fica depois desse anúncio
O botão “seems like AI slop” ainda é um teste, sem data de expansão total confirmada, mas o movimento de fundo já está definido: LinkedIn, Google e Substack estão, cada um à sua maneira, tentando reconstruir um jeito de distinguir conteúdo com peso humano real de conteúdo produzido em escala. Nenhum desses sistemas resolve o problema sozinho, e todos dependem de sinal humano para funcionar, seja um clique de denúncia, um classificador treinado com dado de comportamento de rede ou uma ferramenta de leitura que aponta a origem do texto.
Pra quem trabalha com conteúdo institucional, a lição prática é a mesma que já vale para SEO tradicional: ferramenta de IA ajuda a tirar o texto do zero, mas quem edita, contextualiza e assina o ponto de vista final é quem segue tendo espaço, tanto no algoritmo do LinkedIn quanto na cabeça de quem lê.
É esse tipo de leitura estratégica, cruzando anúncio de plataforma com o que realmente muda na rotina de quem produz conteúdo, que a EducaSEO entrega toda semana pra quem trabalha com marketing de busca e distribuição de conteúdo no dia a dia. Vale à pena ficar de olho em nossos cursos, nossa comunidade e nas novidades que postamos periodicamente aqui no blog.
Referências
- LinkedIn. Post de Hari Srinivasan, CPO do LinkedIn Ecosystem, sobre medidas contra AI slop. Disponível em: https://www.linkedin.com/posts/hsrinivasan1_ai-slop-is-a-top-priority-for-all-of-us-activity-7488612009660346374-xZiY
- TechCrunch. LinkedIn adds a button to report AI-generated ‘slop’. Disponível em: https://techcrunch.com/2026/07/30/linkedin-adds-a-button-to-report-ai-generated-slop/
- The Verge. LinkedIn actually adds a ‘seems like AI slop’ button. Disponível em: https://www.theverge.com/ai-artificial-intelligence/973384/linkedin-seems-like-ai-slop-button
- Social Media Today. LinkedIn offers the option to report AI slop. Disponível em: https://www.socialmediatoday.com/news/linkedin-offers-the-option-to-report-ai-slop/826781/
- The Independent. LinkedIn’s newest feature: A ‘Seems Like AI Slop’ button. Disponível em: https://www.independent.co.uk/news/world/americas/linkedin-ai-slop-button-b3024886.html
- SiliconANGLE. LinkedIn cracks down on users posting ‘AI slop’ after previously encouraging it. Disponível em: https://siliconangle.com/2026/07/31/linkedin-cracks-users-posting-ai-slop-previously-encouraging/
- Shareable TL;DR by SocialBee. July 30: The latest social media news. Disponível em: https://shareabletldr.substack.com/p/july-30-the-latest-social-media-news