Em julho de 2025, a Cloudflare lançou o primeiro “Content Independence Day”: um botão único para bloquear todo bot de IA de uma vez, sem distinção entre o que rastreia para treinar modelos e o que rastreia para responder perguntas. Um ano depois, a própria empresa admite que esse bloqueio genérico não segura mais o tamanho do problema.
No dia 1º de julho de 2026, a Cloudflare anunciou que vai trocar esse interruptor único por uma classificação em três categorias de comportamento, com novos padrões entrando em vigor a partir de 15 de setembro de 2026. Quem administra site de graça ou não mexe em nada até lá passa a herdar um padrão que pode bloquear parte do tráfego de IA em página com anúncio, sem precisar configurar nada.
Vale ler com atenção, porque a categoria que passar batido é exatamente a que pode te tirar do mapa da IA sem avisar.
Como fica a classificação de bots de IA da Cloudflare a partir de setembro de 2026
A mudança parte de uma constatação simples: hoje, quase todo produto de busca também é produto de IA, e vice-versa. O Google Search já responde direto na página de resultado, o Bing tem camada de IA generativa própria, e a linha entre “buscador” e “assistente” ficou porosa demais para caber num rótulo só.
Por isso, a Cloudflare abandonou a ideia de definir um bot como “de IA” ou “não de IA” e passou a classificar comportamentos. São três categorias que valem para todos os clientes, inclusive quem está no plano gratuito:
- Search: rastreia e indexa conteúdo para responder perguntas depois, comportamento típico tanto de buscador tradicional quanto de buscador com resposta gerada por IA, caso do Perplexity.
- Agent: age em tempo real a pedido de um usuário específico, caso de bots como o ChatGPT-User ou de um agente do Gemini navegando o Chrome sozinho.
- Training: coleta conteúdo para treinar ou ajustar um modelo, absorvendo o dado de forma permanente na arquitetura da IA.
Para cada uma dessas categorias, o site pode escolher entre três posturas: bloquear em todas as páginas, bloquear só nas páginas que exibem anúncio, ou permitir sem restrição.
É essa granularidade que faltava na versão anterior do recurso, e é também o motivo pelo qual boa parte da imprensa técnica tratou o anúncio como o fim do bloqueio “tudo ou nada” que a Cloudflare vendia até então.
Quais sites são afetados pelos novos padrões de bloqueio da Cloudflare
Aqui mora o detalhe que costuma passar batido nas manchetes mais rápidas: a Cloudflare não está bloqueando ninguém à força a partir de setembro. Ela está mudando o que vem configurado de fábrica, e só para um recorte específico de contas.
A partir de 15 de setembro de 2026, domínios novos que chegam à Cloudflare, sites novos criados por clientes já existentes e todas as contas do plano gratuito passam a herdar um padrão diferente: bots classificados como Training ou como Agent ficam bloqueados em páginas que exibem anúncio, enquanto o comportamento Search continua liberado.
Quem já tem site configurado antes dessa data, ou quem está em plano pago com configuração própria, não é movido para o novo padrão automaticamente.
Mesmo assim, vale simular o comportamento consultando o próprio painel de Segurança do domínio antes da virada, porque a mudança de default é retroativa para qualquer site que nunca tenha mexido nessa configuração.
Um ponto prático que a documentação da própria Cloudflare deixa claro: cada cliente pode reverter esse padrão a qualquer momento, antes ou depois de 15 de setembro, sem depender de suporte ou processo formal. O opt-out fica dentro de Security Settings, na seção de políticas de bot de IA.
Por que crawlers mistos como o do Google caem na regra mais restritiva
Esse é o ponto que rendeu mais atrito público, e também o que mais interessa para quem trabalha SEO no dia a dia. Segundo a Cloudflare, muitos crawlers hoje combinam mais de um comportamento na mesma visita ao site, misturando Search e Training sob o mesmo agente de rastreamento.
A regra que a empresa adotou para esses casos é direta: um bot misto fica sujeito à classificação mais restritiva que ele carrega. Na prática, isso significa que, se um site bloquear Training, qualquer crawler que combine Search com Training passa a ser barrado inteiro, mesmo na parte que só indexaria para busca.
No próprio anúncio, a Cloudflare argumenta que provedores de busca consolidados que usam o mesmo bot tanto para indexar quanto para treinar saem em vantagem frente a quem já separa essas funções. Matthew Prince, CEO da empresa, associou esse recorte ao “maior buscador do mundo” ao comentar a mudança, numa referência pouco disfarçada ao Google. Vale marcar que essa é uma leitura da própria Cloudflare sobre o funcionamento do Googlebot, não uma confirmação do Google.
O Google, do outro lado, contesta essa generalização. A empresa sustenta que o Googlebot tradicional rastreia só para busca, incluindo funcionalidades como AI Overviews e AI Mode, e que quem cobre o uso para treino de modelo é o Google-Extended, um bot à parte, que já existe justamente para deixar o site optar por sair do treino sem sair do índice de busca. Quem já usa o Google-Extended tende a sofrer menos com a regra do crawler misto, mas isso pressupõe que o site tenha configurado esse bot corretamente, o que nem todo mundo fez.
Essa fricção não fica só no discurso. Já mostramos aqui no blog como o próprio Google lançou, em junho de 2026, o Search generative AI control, um botão dentro do Search Console para tirar o site das respostas de IA sem sair da busca tradicional. É um controle que nasceu de pressão regulatória parecida, e que hoje funciona como complemento direto ao que a Cloudflare está tentando resolver na camada de rede.
A diretiva anterior da Cloudflare já tinha decepcionado: o que muda agora
Vale desacelerar antes de tratar esse anúncio como se fosse a primeira tentativa da Cloudflare de dar esse tipo de controle ao site. Não é.
Em setembro de 2025, a empresa já tinha lançado o Content Signals Policy, uma diretiva declarativa dentro do robots.txt que deixava o site dizer “sim” ou “não” para categorias parecidas com as de agora. Segundo a Cloudflare, mais de 3,8 milhões de domínios ativaram esse sinal.
O problema é que, como o próprio Google confirmou em julho de 2026, essa diretiva nunca teve efeito prático sobre nenhum crawler ou modelo de IA. John Mueller foi direto ao dizer que adicionar esses sinais só cria peso extra no robots.txt, sem retorno técnico nenhum.
É por isso que o anúncio de 1º de julho pesa diferente. Enquanto o Content Signals era só uma declaração de intenção, que dependia da boa vontade de cada crawler em respeitar o que estava escrito no arquivo, o novo sistema de categorias funciona na borda de rede da própria Cloudflare: se o site configura para bloquear, o tráfego é barrado ali mesmo, antes de chegar ao servidor de origem do site, independente de o bot “concordar” com a regra ou não.
O que fazer na prática com os novos controles de bots de IA da Cloudflare
Diversificar a forma de medir e configurar acesso deixou de ser um conselho genérico. Com o prazo de setembro batendo na porta, dá para transformar isso em rotina de checagem.
O primeiro passo é entrar em Security > Bots no painel da Cloudflare e conferir, categoria por categoria, o que está configurado hoje para Search, Agent e Training, e se existe alguma sobreposição em página com anúncio que ninguém revisou ainda.
O segundo é decidir a postura de Agent com calma, porque esse é o comportamento mais difícil de generalizar. Um agente de IA navegando o site a pedido de um usuário pode ser exatamente o tipo de tráfego que uma operação de e-commerce ou de suporte quer manter aberto, mesmo que a página tenha anúncio.
Outro ponto que já apareceu por aqui vale ser somado a essa checagem: o Google atualizou o Lighthouse para auditar se o site está pronto para navegação de agentes de IA, o que ajuda a entender se, tecnicamente, vale a pena manter esse comportamento liberado.
Por fim, vale medir separado. Ferramentas como as que a Semrush lançou para visibilidade em IA ajudam a enxergar se bloquear Training em algum canal específico realmente reduziu a exposição da marca dentro de respostas de assistente, em vez de deixar essa leitura só por dedução.
O que fica depois desse anúncio
A Cloudflare protege uma fatia relevante da internet, e uma mudança de padrão em conta gratuita tende a se espalhar rápido pelo ecossistema, mesmo sem virar manchete.
O que fica claro é que a indústria está indo na direção de separar cada vez mais o que é busca do que é treino, e do que é agente agindo em nome de alguém. A Cloudflare já sinalizou que o próximo passo é ampliar o Pay Per Crawl, o programa que deixa o site cobrar diretamente por acesso, para além do grupo restrito de parceiros que testa isso hoje.
Para quem cuida de SEO, a tarefa prática não muda tanto quanto parece: configurar com intenção, medir separado, e desconfiar de qualquer solução que prometa resolver o problema inteiro com um único botão. Já vimos essa promessa antes, e ela durou menos de um ano.
Quer estruturar esse tipo de decisão junto com quem já acompanha de perto as mudanças de infraestrutura de busca e IA? Vem conhecer as mentorias, os programas e os grupos de discussão da comunidade EducaSEO.
Referências
- Cloudflare. Your site, your rules: new AI traffic options for all customers. Disponível em: https://blog.cloudflare.com/content-independence-day-ai-options/
- Cloudflare. Block AI Bots. Disponível em: https://developers.cloudflare.com/bots/additional-configurations/block-ai-bots/
- Cloudflare. New options to manage AI traffic. Disponível em: https://developers.cloudflare.com/changelog/post/2026-07-01-ai-traffic-options/
- TechCrunch (Sarah Perez). Cloudflare’s new policy pushes AI companies to pay for publishers’ content. Disponível em: https://techcrunch.com/2026/07/01/cloudflares-new-policy-pushes-ai-companies-to-pay-for-publishers-content/
- NBC News (Samantha Elkins). Cloudflare sets AI crawler deadline: separate search or be blocked. Disponível em: https://www.nbcnews.com/tech/tech-news/cloudflare-sets-ai-crawler-deadline-separate-search-blocked-rcna352446