Uma marca de turismo aparece citada numa resposta do ChatGPT. A fonte é uma página de comparação enterrada duas ou três pastas dentro do site, o tipo de conteúdo que só existe pra sustentar um argumento técnico. Quem clica a partir dali, na maior parte dos casos, não cai naquela página. Cai na home.
É tentador tratar isso como detalhe operacional, do tipo que se ajusta depois. O hábito de olhar citação e clique como a mesma métrica vem direto da lógica que a busca orgânica ensinou o mercado, em que a página que ranqueia costuma ser a mesma que recebe a visita. Na IA generativa, esse vínculo está se soltando, e o mercado ainda não tem um jeito consolidado de medir os dois lados em separado.
Esse descolamento apareceu como um padrão recorrente no relatório The 2026 Generative AI Landscape, que a Similarweb divulgou em julho. Pra chegar lá, a empresa cruzou dados de citação de IA generativa com dados reais de tráfego de referência, usando clickstream do próprio painel ao longo de doze meses, entre junho de 2025 e maio de 2026, recorte que cobre mais de 9,5 bilhões de visitas mensais às principais plataformas de IA, alta de 70% frente ao ano anterior.
É esse cruzamento que expõe o problema: a taxa de citação sozinha diz se a IA está usando o conteúdo de uma marca como fonte, mas não diz se isso está gerando visita de verdade. Pra quem mede GEO no dia a dia, essa diferença decide se um número de citação é motivo de comemoração ou só ruído.
O que o relatório da Similarweb mediu sobre IA e busca em 2026
O recorte da Similarweb combina duas camadas: quantas respostas de IA generativa trazem uma citação com link, e pra onde vai o clique de quem chega até um site a partir dessas plataformas. No período medido, o número de usuários únicos mensais das ferramentas de IA generativa cresceu 57%, chegando a 655 milhões.
A taxa de citação também deu um salto. Em junho de 2025, cerca de 1,3% das respostas do ChatGPT nos Estados Unidos incluíam um link externo. Em maio de 2026, esse número chegou a 6,8%, mais de cinco vezes maior. Ainda é minoria das respostas, mas a curva de crescimento é a parte que chama atenção de quem acompanha GEO, sigla de Generative Engine Optimization, denominação que o mercado passou a usar pra disciplina de otimizar conteúdo pra ser encontrado e citado por assistentes de IA, não só pelo buscador tradicional.
Esse movimento de crescimento acompanha o que já vimos em outro levantamento também assinado pela Similarweb, focado no mercado brasileiro: entre junho de 2025 e maio de 2026, o Claude cresceu 750% no Brasil em volume de visitas, enquanto o Gemini mais que triplicou de tamanho por aqui. São bases de dados diferentes, uma olha uso de plataforma e outra olha citação e referência, mas as duas apontam para mercado de IA generativa em expansão acelerada, dentro e fora do Brasil.
Por que a página citada pelo ChatGPT quase nunca é a página clicada
Esse é o achado que sustenta o título do relatório inteiro. A Similarweb encontrou que 65% das URLs citadas pelo ChatGPT ficam duas ou três pastas dentro da estrutura do site, justamente o tipo de página profunda, técnica, com dado específico, que costuma servir de evidência para uma resposta.
O tráfego de referência segue caminho oposto: 58,8% das visitas que a IA manda de volta pro site caem na home, não na página que foi citada. Como resume Aleyda Solís, consultora da Orainti ouvida no próprio relatório, página citada carrega o conteúdo que o modelo usa como evidência, enquanto página de tráfego mostra por onde o usuário efetivamente entra no site, e os dois grupos deveriam ser medidos separadamente, não como um único número de “visibilidade em IA”.
Vale uma ressalva de leitura: o relatório mede citação e destino do clique, não o motivo por trás da escolha do usuário. Os dados mostram que o clique costuma cair numa página diferente da que foi citada, frequentemente a home, mas não permitem afirmar por que isso acontece.
Isso muda a lógica de atribuição que o SEO tradicional ensinou. Numa busca orgânica clássica, a página que ranqueia costuma ser a mesma que recebe o clique. Na citação de IA, uma URL pode ganhar a citação, e a visita que ela gera pode não ter relação nenhuma com aquela URL específica.
Citação e tráfego de IA não são a mesma página
Share de URLs citadas que ficam profundas no site vs. share do tráfego de referência que cai na home · ChatGPT, dados de maio de 2026
Fonte: Similarweb, The 2026 Generative AI Landscape (jul/2026)
Como a taxa de citação do ChatGPT varia por categoria de conteúdo
A média de 6,8% de respostas com citação esconde uma variação grande entre setores. Viagem lidera com folga: 22,6% das respostas do ChatGPT sobre o tema trazem um link. Varejo vem em seguida, com 13,5%, e esportes fecha o pódio, com 10,7%.
No outro extremo, educação tem a taxa mais baixa entre as categorias medidas, com apenas 4,8% de respostas citando alguma fonte. Tecnologia, saúde e mídia também ficam abaixo da média geral. O padrão que a Similarweb descreve é direto: categorias em que o usuário está comparando opções concretas e verificáveis, como um voo, um carro ou um hotel, puxam citação com mais frequência do que categorias construídas em cima de conselho genérico.
O tipo de fonte citada também muda conforme o setor. Em beleza, 54,7% das citações vêm de sites de varejo e e-commerce. Em viagem, 54,1% vêm de sites de avaliação e conteúdo gerado por usuário. Em finanças, sites do próprio setor respondem por 36,6% das citações, com veículos de notícia logo atrás, em 28%. Não existe uma fórmula única de conteúdo citável que funcione igual pra qualquer categoria.
Viagem cita quase 5x mais do que educação
Share de respostas do ChatGPT com pelo menos uma citação, por categoria · EUA, desktop, maio de 2026
Fonte: Similarweb, The 2026 Generative AI Landscape (jul/2026)
O que mudou no tráfego do ChatGPT depois da atualização de 7 de maio de 2026
Em 7 de maio de 2026, o ChatGPT passou a exibir nomes de marca como links clicáveis, em destaque, dentro das próprias respostas, em vez de deixar a fonte escondida em rodapé ou sugestão secundária. O efeito apareceu de imediato nos dados da Similarweb: o tráfego de referência total subiu 157,7% numa única semana.
O salto mais expressivo, porém, foi específico da home: o tráfego direcionado à página inicial das marcas cresceu 354,7% no mesmo período, contra um crescimento bem mais modesto das páginas internas. Antes da mudança, a home respondia por cerca de 26% a 32% do tráfego de referência do ChatGPT. Depois, esse número saltou pra perto de 60% e permaneceu nesse patamar nos meses seguintes, sem sinal de recuo.
A permanência é o dado que importa mais do que o pico inicial. Uma atualização de interface costuma gerar curiosidade passageira, com uso caindo depois de duas ou três semanas. Aqui não foi isso: o platô se manteve, o que sugere mudança de comportamento, não só efeito de novidade.
Esse padrão de usuário chegando pela home também aparece ligado a outro achado do relatório: marcas recomendadas pela IA recebem de duas a quatro vezes mais visitas subsequentes do que concorrentes que não foram mencionadas na mesma resposta. A citação parece funcionar menos como porta de entrada direta e mais como um empurrão pra decisão que o usuário completa depois, voltando ao site por conta própria.
Vale um adendo de leitura: a Similarweb não publica a base bruta de clickstream usada pra montar esses números, ela trabalha com estimativa e extrapolação sobre um painel de usuários, prática comum entre empresas de analytics de mercado, mas que vale lembrar antes de tratar qualquer percentual do relatório como medição exata do universo inteiro.
Depois de 7 de maio, a home virou destino fixo
Share do tráfego de referência do ChatGPT que cai na home da marca, antes e depois da atualização
Valores aproximados, estimados a partir do gráfico oficial da Similarweb (não é a série numérica exata do relatório)
Fonte: Similarweb, ChatGPT Referral Traffic Near Triples Overnight (mai/2026). Leitura visual aproximada, EducaSEO.
O que outros estudos confirmam sobre o gap entre citação e tráfego
O achado da Similarweb não está isolado. A Ahrefs, ao analisar o próprio tráfego de IA recebido pelos seus produtos, encontrou que mais de 80% das visitas vindas de assistentes de IA caem na home, em páginas de produto ou em ferramentas gratuitas, não no conteúdo editorial que normalmente puxa citação. É o mesmo padrão de home como porta de entrada, observado em outra base de dados.
A Ahrefs também mapeou de onde vêm as fontes mais citadas pelo ChatGPT, e o resultado reforça por que esse gap é difícil de fechar só com ajuste de conteúdo: 67% das fontes mais citadas são domínios que a própria marca não controla, com a Wikipédia sozinha respondendo por quase 30% desse total. Além disso, 28,3% das páginas mais citadas pelo ChatGPT não têm nenhuma visibilidade orgânica no Google, sinal de que o mecanismo de recuperação de fontes da IA não está totalmente amarrado ao ranking de busca tradicional. Esse cruzamento entre os dois estudos já apareceu em detalhe no artigo sobre o estudo da Ahrefs aqui no blog.
Um dado do próprio relatório da Similarweb ajuda a moderar qualquer leitura alarmista: 95% dos usuários do ChatGPT nos Estados Unidos também usam o Google no mesmo período, e o Google ainda concentra uma audiência cerca de cinco vezes maior do que a soma de todos os assistentes de IA. A citação por IA generativa é uma frente nova de disputa, não uma substituta que já tomou o lugar da busca tradicional.
Como ajustar a medição de GEO para separar citação de tráfego
O ponto prático que o próprio relatório recomenda é tratar citação e tráfego de referência como dois indicadores distintos, cada um respondendo a uma pergunta diferente. Juntar os dois num único número de “visibilidade em IA” é a forma mais rápida de perder os dois sinais ao mesmo tempo.
Alguns ajustes concretos pra quem cuida de métrica de GEO no dia a dia:
- Acompanhar taxa de citação e profundidade da página citada como um indicador, medindo se o conteúdo está sendo usado como evidência pelo modelo.
- Acompanhar página de entrada e conversão do tráfego de referência como outro indicador, separado do primeiro.
- Estruturar as páginas profundas (comparações, dados técnicos, benchmarks) com claims específicos e headings claros, já que é esse tipo de conteúdo que mais aparece citado.
- Usar URL com linguagem natural nessas páginas: a Ahrefs encontrou taxa de citação de 89,78% em páginas com slug em linguagem natural, contra 81,11% nas demais.
- Tratar a home como página de conversão de verdade, já que é ali que a maior parte do tráfego de IA generativa está chegando hoje.
Duas ferramentas do próprio ecossistema ajudam nesse ajuste. O Lighthouse ganhou recentemente um recurso experimental de auditoria de navegação por agentes de IA, ainda não parte da checagem padrão de toda instalação, mas já disponível pra quem quer testar se as páginas profundas estão estruturadas do jeito que um modelo consegue ler e extrair.
E quem quer medir o outro lado, a citação em si, tem opção fora do próprio Google com as ferramentas de visibilidade em IA da Semrush, que acompanham menção de marca dentro de respostas de assistentes.
O que fica depois desses números
O relatório da Similarweb não muda o argumento de que GEO importa, mas muda a forma de medir se ele está funcionando. Página citada e página visitada são, cada vez mais, dois públicos diferentes dentro do mesmo funil, um sendo convencido pelo modelo, o outro decidindo clicar depois de já ter lido a resposta.
Quem monta dashboard de GEO ainda somando citação e tráfego de referência num número só corre o risco de comemorar visibilidade que não vira visita, ou de descartar conteúdo que está funcionando exatamente como deveria, só que numa etapa diferente da jornada. Separar as duas métricas, e dar tratamento técnico distinto pra página profunda e pra página de entrada, é o ajuste que os próprios dados da Similarweb estão pedindo.
Quem acompanha a EducaSEO de perto sai na frente justamente nesse tipo de ajuste: a gente já está testando, na prática dos próprios cursos e conteúdos, como separar citação de tráfego de referência antes que isso vire consenso de mercado.
Referências
- Similarweb. The 2026 Generative AI Landscape. Disponível em: https://www.similarweb.com/corp/the-2026-generative-ai-landscape/
- Similarweb (Maayan Zohar Basteker). AI Search Stats 2026: Market Share, Referral, and Citation Data. Disponível em: https://www.similarweb.com/blog/marketing/geo/gen-ai-stats/
- Similarweb (Adelle Kehoe). ChatGPT Referral Traffic Near Triples Overnight. Disponível em: https://www.similarweb.com/blog/insights/ai-news/chatgpt-referral-traffic-triples/
- VentureBeat (Laurie Voss). AI cites the deep pages but sends humans to the homepage, most sites are built backward. Disponível em: https://venturebeat.com/technology/ai-cites-the-deep-pages-but-sends-humans-to-the-homepage-most-sites-are-built-backward
- Ahrefs (Patrick Stox). 80% of Our AI Search Traffic Goes to Our Homepage, Product Pages, and Free Tools. Disponível em: https://ahrefs.com/blog/ai-search-traffic-by-page-type-ahrefs/
- Soulo, Tim (CMO da Ahrefs). Ahrefs Analyzes 1 Billion Data Points on AI Search Optimization. LinkedIn. Disponível em: https://www.linkedin.com/posts/timsoulo_in-the-last-6-months-at-ahrefs-we-analyzed-activity-7467561528830078976-rUjs
- Search Engine Journal. AI Search Isn’t Replacing Google, It’s Layering On Top, Similarweb Data. Disponível em: https://www.searchenginejournal.com/ai-search-isnt-replacing-google-its-layering-on-top-similarweb-data/583378/
- Search Engine Journal (Matt G. Southern). Similarweb: ChatGPT Citation Rates Differ Sharply By Topic. Disponível em: https://www.searchenginejournal.com/chatgpt-links-out-most-on-travel-questions/583824/
- Digiday (Sara Guaglione). AI surfacing is messy: publisher visibility and traffic often misalign. Disponível em: https://digiday.com/media/ai-surfacing-is-messy-data-shows-publisher-visibility-and-traffic-often-misalign/
- Solís, Aleyda. Post sobre o relatório The 2026 Generative AI Landscape. LinkedIn. Disponível em: https://www.linkedin.com/posts/aleyda_similarweb-new-2026-generative-ai-landscape-activity-7486028262842810368-cndj