Em 22 de julho de 2026, a Alphabet divulgou o balanço do segundo trimestre com receita de US$ 119,8 bilhões, alta de 24% frente ao mesmo período do ano anterior. É o 12º trimestre seguido de crescimento de dois dígitos, e o número veio acima da expectativa do mercado, que projetava algo perto de US$ 116,9 bilhões.
O puxador principal foi o Google Cloud, que faturou US$ 24,8 bilhões, salto de 82% na comparação anual. Mas o dado que interessa direto a quem vive de tráfego de busca é outro: a receita de Search cresceu 17% no mesmo trimestre, bem na época em que o AI Mode já passa de 1 bilhão de usuários mensais.
Só que declarar lucro recorde e provar que a base do negócio está mais forte são duas coisas diferentes, e o próprio balanço da Alphabet mistura as duas na mesma manchete.
Alphabet fatura US$ 119,8 bilhões no 2º trimestre de 2026, puxada por Google Cloud e Search
A receita consolidada da Alphabet somou US$ 119,8 bilhões no trimestre encerrado em 30 de junho de 2026, ante US$ 96,4 bilhões um ano antes. Em moeda constante, o crescimento foi de 23%.
Segmento a segmento, o Google Services (que reúne Search, YouTube, Network e assinaturas) faturou US$ 94,5 bilhões, alta de 14,5%. Dentro dele, a publicidade do Google somou US$ 81,6 bilhões, com a receita de Search and Other subindo 17%, para US$ 63,3 bilhões, e o YouTube Ads avançando 13%, para US$ 11 bilhões.
Já o Google Cloud, que inclui o Google Cloud Platform (GCP) e o Workspace, fechou em US$ 24,8 bilhões, os tais 82% de alta. O resultado operacional do segmento mais do que triplicou, saindo de US$ 2,8 bilhões para US$ 8,8 bilhões, com margem operacional saltando de 20,7% para 35,6%. O backlog de contratos da nuvem também engordou US$ 50 bilhões só neste trimestre, chegando a US$ 514 bilhões.
Segundo Sundar Pichai, CEO da Alphabet e do Google, o resultado reflete uma estratégia integrada de infraestrutura, modelos e produtos de IA rodando ao mesmo tempo em Search, Cloud e Workspace. Pichai não usa esses termos, mas essa fala aponta para uma leitura que vale explicitar: a empresa está monetizando a mesma pilha de IA em várias frentes de receita simultaneamente, não apostando tudo numa única linha de produto.
Google Cloud cresce 82%: como fica a comparação com Azure e AWS
Colocar o crescimento de 82% do Google Cloud ao lado dos concorrentes ajuda a entender o tamanho real do salto. No último trimestre reportado pela Microsoft antes deste balanço da Alphabet (encerrado em março de 2026), o Azure cresceu 39% em moeda constante. Já a AWS, da Amazon, fechou seu trimestre mais recente disponível até aqui com alta de 28%, a maior taxa da divisão em 15 trimestres.
Isso não significa que o Google Cloud ultrapassou os dois em volume: a AWS segue faturando mais que o dobro do GCP em receita absoluta, e a Azure está embutida dentro do segmento Intelligent Cloud da Microsoft, que não abre o número isolado da plataforma. O que o dado mostra é que a Alphabet está crescendo, em ritmo percentual, mais rápido que os dois concorrentes diretos, mesmo partindo de uma base que já não é pequena.
Vale contextualizar também o outro lado dessa conta: a corrida de capex das três (mais a Meta) segue subindo praticamente junto com a receita. A própria Alphabet elevou o teto do próprio guidance de investimento para até US$ 205 bilhões em 2026, depois de já ter gasto US$ 44,9 bilhões só neste trimestre, mais que o dobro do valor investido um ano antes.
Receita de Search cresce 17%: o AI Mode explica o salto?
Um dos pontos mais repetidos na call de resultados foi a ideia de que os recursos de IA estão puxando o crescimento da própria busca. Pichai citou o avanço do AI Mode, que já passa de 1 bilhão de usuários mensais ativos, e do Gemini App, que foi de 750 milhões de usuários no trimestre anterior para 950 milhões agora.
O detalhe é que o próprio balanço não isola quanto desse crescimento de 17% em Search vem especificamente do AI Mode, e quanto vem de fatores mais tradicionais, como volume geral de consultas, ajuste de preço de anúncio ou sazonalidade (a própria empresa citou a Copa do Mundo de 2026 como fator de audiência no YouTube, por exemplo). Ler os 17% como prova definitiva de que a IA generativa está resolvendo a fragmentação de tráfego seria ir além do que o próprio dado sustenta.
Esse é justamente o ponto onde vale cruzar informação de fora do release. Já mostramos por aqui, no estudo da Ahrefs sobre tráfego de IA e busca, que o share de tráfego do próprio Google (via link azul tradicional) segue encolhendo mês a mês nos mais de 95 mil sites cadastrados na ferramenta de Web Analytics da Ahrefs.
É uma amostra grande e consistente ao longo de doze meses, mas ainda assim uma amostra, não uma medição de todo o ecossistema da web. Dentro desse recorte, porém, as duas coisas não se contradizem: a Alphabet como empresa pode faturar mais com Search, ao mesmo tempo em que o modelo de cliques para terceiros continua sob pressão.
Do lado do desenvolvedor e de quem faz GEO, o crescimento também aparece em outros números: os modelos Gemini processam hoje cerca de 22 bilhões de tokens de API por minuto, ante 16 bilhões no trimestre anterior, e o Gemini Enterprise já é usado por perto de 90% das empresas da Fortune 100.
Para quem quer entender como aparecer bem citado dentro dessas respostas, vale complementar com a leitura sobre estratégia de GEO multiplataforma, já que o Gemini segue puxando parte da lógica de ranqueamento do próprio Google Search para dentro das respostas generativas.
Lucro recorde da Alphabet: quanto veio de ganhos com Anthropic e SpaceX
Esse é o ponto que pede desaceleração antes de repetir a manchete de “lucro recorde” sem nenhum filtro. O lucro líquido disponível a acionistas cresceu 298% no trimestre, e o lucro por ação (GAAP) chegou a US$ 9,11. Só que boa parte desse salto não veio da operação do negócio: a linha de “outras receitas” somou cerca de US$ 99 bilhões, puxada por ganhos com participações que a Alphabet mantém em outras empresas, incluindo Anthropic e SpaceX.
Quando o mercado olha só para o lucro ajustado, que tenta isolar esse tipo de ganho não operacional, o número de EPS ficou em US$ 2,85, levemente abaixo da expectativa de analistas, que era de US$ 2,89. Ou seja: o resultado operacional do trimestre foi forte e consistente, mas o “recorde” de lucro líquido que virou manchete depende também de uma valorização financeira que não tem relação direta com Search, Cloud ou Gemini.
Não é a primeira vez que esse tipo de camada aparece por trás de um número que circula solto pela imprensa. A mesma cautela que já vale para percentual de base pequena, como mostramos no estudo da Ahrefs, também vale aqui: antes de repetir “lucro recorde” como sinônimo de “negócio operacional recorde”, vale separar o que é ganho de portfólio do que é receita recorrente.
Por que as ações da Alphabet caíram com o capex de até US$ 205 bilhões
Mesmo com receita acima do esperado, as ações da Alphabet recuaram no after-hours após o anúncio. O fator mais citado pelos analistas foi o novo teto de capex, que subiu para até US$ 205 bilhões em 2026, mas não foi o único: pesou também a preocupação com o impacto desse gasto sobre o fluxo de caixa livre da empresa, além do desconforto mais amplo do mercado com o ritmo de investimento em infraestrutura de IA em meio à competição acirrada entre as grandes plataformas de nuvem. Qualquer sinal de aceleração nesse investimento, somado a dúvidas sobre o retorno de curto prazo, tende a pressionar a ação, mesmo quando o resultado operacional vem forte.
Esse tipo de reação também não é exclusividade da Alphabet. Amazon e Microsoft vêm navegando o mesmo dilema em seus próprios balanços recentes: Cloud crescendo em ritmo forte, capex crescendo junto, e o mercado tentando calibrar se o investimento está convertendo em receita rápido o suficiente para justificar o tamanho do cheque.
O que o balanço da Alphabet muda na prática para quem trabalha com SEO
Separar o que é dado de negócio do que é sinal para quem cuida de tráfego é o exercício mais útil que dá pra tirar desse balanço. A Alphabet segue crescendo em receita de Search, o que indica que o volume de consulta e o modelo de anúncio continuam saudáveis do ponto de vista da empresa. Isso não equivale a dizer que o modelo de clique orgânico para terceiros está mais forte, são camadas diferentes da mesma cadeia.
O caminho mais seguro segue sendo medir separado: acompanhar o relatório de performance de IA generativa que o Google já lançou dentro do Search Console, sem misturar esse número com o tráfego orgânico tradicional. Vale o alerta de que esse recurso ainda está em liberação gradual para um subconjunto de sites, então parte de quem lê isso pode não ter acesso à aba dedicada ainda, e precisa continuar acompanhando esse tráfego misturado ao relatório padrão até a expansão chegar à própria propriedade.
Outro ponto de atenção é a adoção crescente do Gemini Enterprise e do Gemini App, que reforça a tendência: cada vez mais consulta nasce e morre dentro do próprio ecossistema de IA da empresa, sem gerar clique de referência para fora.
Do lado de quem monta estratégia de conteúdo, o crescimento do AI Mode para mais de 1 bilhão de usuários mensais também é um sinal prático de que otimizar só para o link azul tradicional já não cobre o funil inteiro de busca dentro do próprio Google.
O que o lucro recorde da Alphabet sinaliza para o futuro da busca
O 2º trimestre de 2026 da Alphabet mostra uma empresa que segue crescendo em receita em praticamente todas as frentes, com Cloud puxando o ritmo mais forte do trimestre e Search mantendo alta de dois dígitos mesmo em meio à fragmentação de busca que documentamos mês a mês por aqui.
Ao mesmo tempo, o próprio balanço reforça que boa parte do “recorde” de lucro depende de uma valorização financeira pontual, não de um salto equivalente na operação central do negócio.
Para quem cuida de SEO no dia a dia, o balanço reforça o mesmo exercício que atravessou este texto inteiro: separar o número que vira manchete do número que sustenta a operação, seja no lucro por ação, no ritmo de crescimento do Cloud ou na fatia de Search puxada por IA.
A EducaSEO faz esse mesmo cruzamento, entre balanço trimestral, estudo de mercado e dado oficial, em cada matéria publicada no blog, para quem decide com número apurado em vez de manchete solta.
Referências
- Alphabet Inc. Alphabet Announces Second Quarter 2026 Results. Disponível em: https://s206.q4cdn.com/479360582/files/doc_financials/2026/q2/2026q2-alphabet-earnings-release.pdf
- Google Blog. Alphabet earnings call Q2 2026: Sundar Pichai remarks. Disponível em: https://blog.google/company-news/inside-google/message-ceo/alphabet-earnings-q2-2026/
- CNBC. Google (GOOG) Q2 2026 earnings report: Live updates. Disponível em: https://www.cnbc.com/amp/2026/07/22/google-earnings-q2-goog-live-updates.html
- Stockanalysis.com. Alphabet (GOOGL) Q2 2026 Earnings Call Transcript & Audio. Disponível em: https://stockanalysis.com/stocks/googl/transcripts/657320-q2-2026/
- Beancount.io. Microsoft FY2026 Q3: Azure Hits 40% Growth as the $190 Billion Capex Bet Compounds. Disponível em: https://beancount.io/blog/2026/07/12/microsoft-fy2026-q3-earnings-analysis
- Betafinch. Cloud Earnings Guidance Leaders 2026: AWS, Azure, and GCP. Disponível em: https://betafinch.com/blog/cloud-earnings-guidance-leaders-2026