O Google quer ditar as regras da própria IA nos Estados Unidos, mas Reino Unido e Brasil seguem outro caminho

26 Junho, 2026

Um novo documento do Google defende autorregulação de IA nos EUA. Reino Unido e Cade já mostram outro caminho (e isso afeta direto o SEO e o GEO).

Redação EducaSEO
Por: Redação EducaSEO
Autorregulação de IA do Google sob pressão global

Em 25 de junho de 2026, o Google publicou um documento de política pública com um nome direto: “A Pragmatic Approach to AI Governance in America”. É, na prática, um manifesto endereçado ao governo dos Estados Unidos, propondo como a inteligência artificial deveria ser regulada no país. 

E a ideia central pode ser resumida em uma frase: deixa a própria indústria escrever as regras, com o governo só supervisionando de fora.

O problema é que essa não é a única régua em jogo. Na mesma semana, o Reino Unido já tinha obrigado o Google, por lei, a abrir critérios de ranqueamento que antes eram segredo absoluto. E, dois meses antes, o Brasil decidiu investigar formalmente se o próprio uso de conteúdo jornalístico pelo Google em buscas e IA configura abuso de posição dominante.

Ou seja: enquanto o Google pede confiança nos Estados Unidos, já está sendo cobrado por provas em outros lugares. Vamos entender o que o documento propõe, por que ele não é um texto neutro, e o que tudo isso significa para quem trabalha todo dia com SEO e GEO.

O que o Google está propondo, em linhas gerais

O documento divide a IA em duas categorias, com lógicas de regulação bem diferentes entre si.

A primeira é a “IA de fronteira”: os modelos mais avançados que existem, com potencial de representar risco real de segurança nacional. Para essa categoria, o Google propõe uma organização independente, financiada pela própria indústria, mas supervisionada pelo governo. 

Esta lógica é parecida com a de corretoras de valores ou associações médicas nos Estados Unidos: regras escritas e fiscalizadas pelo próprio setor, com o governo no papel de árbitro final.

A segunda categoria é a “IA amplamente implantada”: chatbots, assistentes, buscas com IA, o que a maioria das pessoas usa no dia a dia. Aqui, o argumento do Google é que não precisamos de leis novas, só de aplicar com mais cuidado as leis que já existem. 

O documento detalha seis frentes dentro dessa categoria: impacto no mercado de trabalho, proteção de crianças, infraestrutura de energia, autenticidade de conteúdo gerado por IA, direitos autorais e privacidade.

A maioria dessas frentes tem relação indireta com o trabalho de SEO. Vamos passar rápido por elas e focar na parte que toca diretamente quem produz conteúdo: direitos autorais.

Quem fala aqui não é neutro

Antes de mergulhar no conteúdo do documento, vale entender quem fala aqui e como essa fala chegou até nós, pois isso já diz bastante sobre a função real do texto.

Um documento lançado em três canais, no mesmo dia

Quem encabeça a publicação é Kent Walker, Presidente de Assuntos Globais do Google e da Alphabet (e, por boa parte da carreira, o principal executivo jurídico da empresa). Não é um texto técnico escrito por engenheiros: é uma peça de diplomacia corporativa, assinada pelo executivo cuja função é negociar com governos.

E o lançamento não foi discreto. No mesmo dia, o documento saiu simultaneamente no blog oficial do Google, no LinkedIn e no X (ou Twitter, se preferir), com divulgação coordenada nos canais institucionais da empresa. 

Seis meses antes, em dezembro de 2025, o próprio Kent Walker já tinha publicado um texto antecipando boa parte dessas ideias. Este paper não nasceu de um impulso de última hora, é a conclusão de uma campanha de comunicação que já estava em andamento há meses.

A onipresença publicitária da IA do Google

O esforço de comunicação não fica só na esfera institucional. Hoje é difícil passar um dia sem ver um anúncio do Gemini, e não só dentro do próprio ecossistema do Google. A publicidade da IA do Google aparece em redes sociais, em mídia out of home, e nos mais diversos contextos.

Este cenário é importante para ler o documento com os pés no chão: ele foi escrito por uma empresa que está, ao mesmo tempo, investindo pesado em convencer o público a usar sua IA e pedindo ao governo americano para deixar essa mesma IA se autorregular. 

Dessa forma, não é exagero dizer que o Google quer moldar a percepção pública e a regulação ao mesmo tempo.

O núcleo que interessa pra quem cria conteúdo: copyright e a troca de valor da IA

Essa é a parte do documento que toca direto a rotina de quem trabalha com SEO, GEO ou produção de conteúdo. O argumento do Google aqui tem três partes.

Fair use, Google-Extended e o limite do uso transformador

A primeira afirmação da marca é que usar dados públicos da web para treinar modelos de IA não deveria precisar de autorização nenhuma. O documento compara isso a “um estudante de arte se inspirando ao caminhar por uma galeria”, um uso tão transformador que nem chegaria a configurar cópia de fato.

Na prática, o Google já oferece uma forma de optar por fora dessa coleta: o Google-Extended, uma instrução simples que se coloca no robots.txt do site e impede que aquele conteúdo alimente o treinamento do Gemini, sem afetar a indexação normal no Google Search. 

Se você cuida de SEO técnico, vale revisar se essa configuração já está tratada conscientemente no seu site (porque a opção só serve pra quem sabe que ela existe!).

Os pilotos de grounding: o Google pagando por conteúdo fresco

A segunda parte é mais nova, e mais interessante: o documento confirma que o Google está testando formas de pagar, ou negociar de alguma forma, por acesso a conteúdo que ajuda suas respostas de IA a ficarem mais atualizadas e factualmente corretas, um processo que o próprio texto chama de “grounding”. 

Isso confirma algo que o mercado já vinha notando: parte do tráfego perdido para buscas com IA pode, em alguns casos, estar sendo parcialmente reposto por acordos de licenciamento direto, em vez de cliques.

A diferença importa: isso não é uma política aberta a qualquer site, é um piloto, com critério próprio do Google sobre quem entra e em que condição. Mas para quem produz conteúdo de forma geral, a régua que continua valendo é a visibilidade orgânica, não um cheque de licenciamento.

Por que o Google prefere notificação e remoção a filtro automático de similaridade

A terceira parte trata do que fazer quando uma IA gera um conteúdo que copia algo que já existe. O Google defende que esse problema deveria ser resolvido como sempre foi resolvido na internet: com notificação e remoção sob demanda, e não com um filtro automático que decide, de forma subjetiva, se algo é “parecido demais” com uma obra anterior.

Faz sentido do ponto de vista técnico: automatizar esse tipo de julgamento é genuinamente difícil. Mas também é uma posição que coloca o trabalho de detectar e denunciar a cópia em quem foi copiado, não em quem copiou.

Outras frentes regulatórias em movimento

O Google pede para regular a si mesmo dentro dos Estados Unidos, mas em outros dois países, essa mesma pergunta já foi feita (e a resposta parece ser não).

Reino Unido: ranqueamento sob auditoria, com multa pesada

Oito dias antes do lançamento desse documento, a autoridade de concorrência do Reino Unido formalizou uma decisão que obriga o Google a ranquear resultados orgânicos (incluindo dentro dos AI Overviews) com critério objetivo e auditável, com aviso antecipado de mudanças relevantes e um canal real para publishers contestarem perdas de visibilidade. 

O Google tem seis meses para cumprir, e o descumprimento pode gerar multa de até 10% do faturamento global da empresa.

Se essa exigência realmente sair do papel, ela pode trazer mais informação concreta sobre como o ranking funciona do que qualquer SEO já teve acesso. E vale acompanhar de perto, mesmo fora do Reino Unido, porque regras desse tipo costumam virar referência em outras jurisdições e podem impactar decisões em terras tupiniquins.

Brasil: o Cade transforma inquérito em processo administrativo

Dois meses antes, em abril de 2026, o Cade decidiu, de forma unânime, transformar uma investigação que já durava anos em um processo administrativo formal contra o Google, incluindo, agora de forma explícita, o uso de conteúdo jornalístico tanto em buscas tradicionais quanto em IA Overviews. 

A tese é que o Google estaria extraindo valor econômico de conteúdo de terceiros sem contrapartida proporcional. Em resposta pública, o Google disse que a decisão reflete uma “compreensão equivocada” sobre como o produto funciona.

E embora esse processo deva levar anos para ser concluído, já serve como termômetro: o argumento de que IA generativa “cria oportunidades de descoberta” para quem produz conteúdo está sendo testado formalmente, e não só nos bastidores.

Dentro de casa, nos Estados Unidos, o Congresso também está dividido

Nem dentro dos próprios Estados Unidos existe consenso sobre o que o Google está propondo.

Na mesma semana em que o documento foi lançado, o Congresso americano discutia um projeto de lei bipartidário que também propõe regras federais para IA, mas com auditoria obrigatória para grandes empresas, algo que o paper do Google evita. 

Mais de 50 legisladores estaduais já se posicionaram contra qualquer tentativa de retirar dos estados o poder de regular IA, alegando que isso enfraqueceria proteções já existentes para crianças, consumidores e criadores de conteúdo.

Ou seja: o “meio-termo pragmático” que o Google propõe é visto, por outros atores do próprio debate americano, como ainda inclinado a favor da indústria.

O que isso muda na prática para quem trabalha com SEO e GEO

Tirando o debate jurídico de cena, sobram pelo menos dois pontos concretos que merecem entrar na sua rotina de trabalho.

Proveniência de conteúdo: SynthID, C2PA e o próximo capítulo do EEAT

Uma parte do documento que recebe pouco destaque na imprensa, mas que afeta direto nossa rotina, é a defesa de padrões de “proveniência” de conteúdo: tecnologias como o SynthID (marca d’água própria do Google para identificar conteúdo gerado por IA) e o C2PA (um padrão aberto de “credenciais de conteúdo”, apoiado por várias empresas, que registra a origem e o histórico de edição de uma peça de mídia).

Se esse tipo de padrão se popularizar, e o documento defende que sim, é razoável esperar que ele vire, com o tempo, mais um sinal considerado por buscadores e modelos de IA na hora de avaliar credibilidade. Uma espécie de próximo capítulo do EEAT, focado não só em quem escreveu o conteúdo, mas em como ele foi produzido e se foi alterado depois.

Pontos que você deve colocar no radar

  • Revisar se o robots.txt do seu site já trata explicitamente do Google-Extended, caso você queira ter controle sobre o uso do seu conteúdo em treinamento de IA;
  • Observar se os programas de “grounding” (parcerias pagas) vão se abrir para mais sites, ou continuar restritos a poucos parceiros;
  • Considerar como sinais de proveniência, como SynthID e C2PA, podem no futuro ajudar a diferenciar conteúdo humano de conteúdo gerado por IA nos resultados de busca;
  • Acompanhar as notícias aqui no blog da EducaSEO porque as mudanças instituídas pelo Reino Unido ou pelo processo brasileiro do Cade podem afetar o setor.

O que observar a partir de agora

Esse documento, por si só, não resolve nada, pois é uma posição, não uma lei. Mas ele marca bem o momento que estamos vivendo: o Google quer ser o autor das próprias regras nos Estados Unidos, justamente quando outros países, e até o próprio Congresso americano, estão testando se confiar nessa autorregulação é suficiente.

Três sinais valem ficar no radar: o desfecho desse debate no Congresso dos EUA, o prazo de seis meses que o Reino Unido deu ao Google, e o andamento do processo do Cade no Brasil. 

É exatamente esse tipo de acompanhamento que a EducaSEO se propõe a fazer por você: transformar decisão regulatória, processo administrativo e linguagem jurídica em algo que faça sentido pra quem trabalha com SEO no dia a dia (sem precisar ler 21 páginas de paper de política pública para entender o que muda na prática!). 

Continue por aqui. A gente acompanha os sinais, você foca em ranquear. 

Referências

PUBLICADO EM: AI-Mode Gemini GEO GOOGLE Inteligência artificial SEO

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